E por falar em conexões

on domingo, 13 de março de 2011
Que me perdoem os entendidos de cinema, mas hoje venho falar de um filme. Nem de longe uma análise, apenas compartilhar algumas impressões e que me atrevo, arrisco, a aproximá-las da dança.
Ontem assisti a Lula - o filho do Brasil e me surpreendi. Achei que veria uma biografia completa e muito centrada no líder político Luis Inácio da Silva. O filme passa por isso, é claro, afinal é sobre a vida de Lula; no entanto, a minha surpresa se situa num aspecto em especial: a figura/personagem da mãe de Lula, Dona Lindu, uma mulher. E que mulher! É o fio condutor da dramaturgia. Quando o filme acaba, o que fica reverberando forte em mim é o pulso da história da mãe de Lula. Inclusive, o filme praticamente acaba quando Dona Lindu (foto abaixo) morre.



Através da personagem de Dona Lindu, um recorte pontual, que parece ser intencional por parte do diretor Fábio Barreto, é que vamos conhecendo Lula. Lula é tecido no filme como resultado do seu relacionamento com sua mãe. E isso me fez pensar, já durante o filme, o quanto somos enquanto seres humanos resultado dos relacionamentos que colecionamos nessa vida. Somos e temos, como indivíduos, uma história particular, móvel e inacabada, embora tecida – de maneira também móvel e sem fim – por histórias entrelaçadas.
História das histórias que me fez lembrar o trecho da música de Gonzaguinha, que um dia performei declamando, como professora madrinha, na formatura de dança do ano de 2007.

E aprendi que se depende sempre
de tanta muita e diferente gente.
Toda pessoa é sempre as marcas
das lições diárias de outras tantas pessoas.
É tão bonito quando a gente entende
que a gente é tanta gente
onde quer que a gente vá.
É tão bonito quando a gente sente
que nunca está sozinho
por mais que pense estar.

Poema que me fez pensar na dança, mais especificamente na relação indissociável entre processo e obra. Podemos olhar a obra em dança, aquela que é apresentada ao público também como resultado de um conjunto de relacionamentos possíveis. Conjunto/coleção de relacionamentos que são as possíveis conexões realizadas para que a obra seja gerada. Conexões de informações que se configuram como corpo/espaço/cena e que estão e são do mundo. Mundo presente nas pessoas, ideias, livros, imagens, experiências, acontecimentos.
Trata-se de um conjunto de relações que se transformam em obra e que aparecem, quando a obra está lá sendo apresentada, dançada, como os caminhos percorridos, as aproximações com algumas ideias, a escolha pela discussão de questões, teste de hipóteses, bem como a escolha por determinados tipos de experiências e procedimentos metodológicos/estéticos. Isso é processo: o tecer da teia de informações que implica entender que não existem liberdade nem controle absolutos. Afinal, estamos situados no universo artístico tão movido de dúvidas férteis, surpresas e desconhecidos. É sentida na carne, em simultâneo, a força das restrições e a potência das possibilidades. É sentida a tensa presença dos acontecimentos que atualizam o que é imaginado e o que é realmente possível de ser materializado.
Essa Conversa me fez lembrar que um dia ouvi coisas parecidas nas aulas da Helena Katz, Fabiana Brito, Chris Greiner. Que me fez lembrar Salvador, mestrado, o Porto da Barra, a onda do mar, o som dos tambores. Que me fez lembrar e pensar e lembrar e pensar e lembrar...
Como é possível esse passeio no pensamento ter acontecido durante o filme? E ainda assim eu não ter perdido a história de Luis Inácio da Silva?
Quando a arte, seja qual for sua configuração, nos toca, nos pega de jeito, ela nos faz ir e voltar, ampliar, recolher, subir, descer, MOVER. A semiose espiralada dos signos se instala: um signo que se realiza em outro e assim infinitamente remexendo o nosso repertório passado e promovendo futuro, sem permissão de escapar do momento presente. Uma coisa que pensa outra que lembra outra que sente outra que... outra... outras tantas. Ainda sentada no sofá, o filme acaba. Pernas cruzadas. Não consigo levantar. Mas sinto que não tenho o mesmo tamanho.

Gladis Tridapalli

1 comentários:

erica mityko disse...

APLAUSOS PARA GLADIS!!!

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